Crisálida

TEXTOSCRÔNICA

Andrew A. Barroso

10/10/20264 min read

Fui apanhar aquela passageira. O GPS orientava uma rota inconveniente que me forçou a retornar, entrando pela lateral do supermercado. Ainda era cedo para minha paranoia cósmica, suspeitando de provocação ou flagelo deliberado pelo Divino. Antes da ebulição sanguínea, vieram as respirações de meditação e as longas piscadas de olhos. Declinei de recusar a viagem, de culpar a Deus, a tecnologia e a passageira, e fui atrás dela [a vergonha do fiado atrasado do psicólogo me motivou bastante, não tenho dúvidas — vergonha na cara, ambições ou terapia: algo estava funcionando].

Recebi a mensagem da passageira: “Estou aqui na saída ‘x’, em frente à loja de motos”. Por que aquela mulher estava escorada na saída do supermercado com algumas sacolas? Por que não fez o simples para me ajudar?

— Valquíria, é você? Pode entrar.

Confirmou e, com muita dificuldade, chegou à porta da frente, pedindo acomodação ao meu lado. Justificou-se, mostrando não ter controle sobre uma das pernas, e pediu, com alguma contenção ou constrangimento, que eu a ajudasse com a [desobediente, brinquei] perna.

— Pode puxar pela barra da calça mesmo [parecendo se referir a um bicho morto] ...

Sem hesitar, me esgueirei até sua perna, agarrei sua canela e a pesquei para dentro [tinha a consistência e a resignação de um molusco abocanhado]. Depois que vi a dificuldade que ela teve para embarcar me senti mal por não ter notado antes a sua idade e suas limitações.

A impressão do desconforto perdeu lugar para uma demanda: cigarros. A rouca pediu de forma educada, discreta e vestida de elogios [ali me parecendo até manipulação] que eu fizesse uma parada extra para que ela comprasse o cigarro. Chegamos a um acordo educadamente e de forma comercial, achamos uma tabacaria no caminho, e eu lhe trouxe seus maços.

Enquanto eu intermediava a compra, começava a achar que aquela quantidade se devia a uma oportunidade rara, fosse de saídas ou de encontrar pessoas dispostas a comprar seu fumo. Cogitei que talvez fosse um momento breve de liberdade que ela estivesse tendo, usando o transporte e articulando que outro fizesse por ela o que não podia.

Foi interessante imaginar que eu, de forma desavisada, estivesse atrás de dinheiro em troca de transporte e que alguém esperasse por mim a fim de me usar para sua liberdade. Achei que estivesse sendo usado naquela hora, mas não achei mal. Recebi a gorjeta do favor do cigarro e seguimos para seu destino, que o mapa mostrava muito próximo [só mostrava].

“Dobre à direita”, dizia o aplicativo, que me levava para um dos destinos mais temidos dos motoristas de Belém: o Canal do Galo, que tem até um alerta vermelho de segurança para motoristas de aplicativos. Quanto mais eu avançava, pior ficava, e a mulher também parecia desorientada e não sabia me ajudar a sair dali. Chegamos a um ponto crítico da viagem: havia uma cratera gigante, e seguir pela pista era impossível.

Custo afundado: eu já havia queimado muito combustível, o painel já pedia abastecimento, e voltar parecia prejuízo — uma falácia argumentativa que, pelo visto, eu não tinha aprendido tão bem.

Ali era o momento da aventura. Estávamos em um lugar arriscadíssimo e diante de um desafio geológico e, por que não, egoico de minha parte: a única alternativa possível na minha cabeça seria a calçada, que era dividida por um poste de energia e, mais adiante, por entulhos de concreto. A mulher entendeu minha intenção e disse lentamente:

— A gente vai morrer.

— Feche seu retrovisor, por gentileza — pedi, muito seguro, como um capitão das naves de filmes.

— Moço, o carro não passa — disse, depois de atender ao meu pedido.

— Se passar aqui, passa ali na frente também — respondi, calculando os riscos, muito sério.

Passamos sobre a calçada, entre o poste e um muro, com uma folga de um dedo, e depois, com folga, pelo entulho. Evitamos a cratera e descemos da calçada para rodopiar mais um pouco, até ela ter a iniciativa de colocar o destino no próprio celular [eu não acreditava que estava vindo de uma sucessão de erros e que minha gasolina estava acabando].

Seguimos para o posto, e ela contribuiu de forma justa.

Na viagem para sua casa, ela falou um pouco do aneurisma que tivera, do marido que partira em decorrência da covid-19 e da experiência que tivera morando muitos anos no Peru. Falou sobre cultura, pessoas, viagens e, tacitamente, sobre vida e saudade.

Ali eu via um espécime frágil, lento, mas com muitas coisas boas acumuladas, talvez com potencial de transformação. Talvez a transformação estivesse por acontecer em mim, na verdade. Uma metamorfose.

Chegamos à sua casa, e um casal quase tão velho quanto ela estava preocupado, a aguardando na porta [estava confirmado, ela tinha saído para uma aventura com suas próprias pernas — levou uma bronca por ter saído da frente de casa, feito criança.

Vamos tirar a grande lagarta do carro — minha tarefa, meu apogeu e, adianto, também o início da minha metamorfose.

A anfitriã, muito mais magra, estava quase desesperada [talvez já tivesse passado apuros carregando Valquíria], mas eu deixava claro que daria conta de sustentar aquele peso.

O esforço foi titânico para aquela mulher, que se levantou com a graça de um enorme leão-marinho, de uma vez só. Parou por dois segundos de pé e já foi caindo para a frente feito uma árvore. A outra descabelou-se, achando que seria esmagada igual formiga. Firmei meus pés, alinhei a coluna e enrijeci meus músculos, sustentando a mulher. Escorei-a no carro, e ela, muda, apenas arregalava os olhos, olhando para cima. Eu perguntei três vezes se ela estava passando mal, até que ela nos tranquilizou. A grande mulher respirou um pouco, e eu a ajudei a subir até a porta da casa. Agradeceram, e fui embora.

Fiquei digerindo aquela sequência de acontecimentos. Fiquei pensando que meu carro, meus ossos e músculos foram tomados de empréstimo. Meu corpo, que andava vazio, já era uma crisálida gelatinosa, mas ali aconteceu algo maior. Eu senti minhas pernas, minha vida acontecendo, a possibilidade de voar e de sustentar. Naquele momento, eu me tornei mais veloz que qualquer recordista, mais contundente que qualquer pugilista, mais resistente, mais forte. Ali eu era o único da minha espécie, imbatível, inigualável. Aquele sentimento me preencheu.

Quanto à lagarta, não sei, mas escute “Little Wing”, por Stevie Ray Vaughan, e monte sua própria crisálida.

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