Distrações veterinárias

TEXTOSCRÔNICA

Andrew A. Barroso

10/2/20263 min read

Pipoca — minha cadela albina — teve convulsões às 4h, e acordamos aflitos. Havia passado quase um ano desde a última crise, e sempre estamos com medo de que ela nos surpreenda novamente. Levei-a à veterinária de praxe depois do almoço.

Começamos o atendimento normalmente, e eu dava as informações que Pipoca não dizia, embora seus olhos azuis me fitassem em denúncia sempre que eu tentava ser criativo demais com a narrativa. O velho animal é amoral, como todos, mas senti que aquele era o seu momento de vingança. Sempre que eu mentia sobre a frequência dos remédios, a alimentação ou os exercícios, a cachorra virava a cara pra mim como quem se farta de uma vida de mentiras — ou da minha companhia. Era uma atuação digna de um ser consciente da situação. Em certos momentos, eu esperava que ela bufasse, descesse da mesa, pegasse sua pastinha de exames e caísse fora dali, em recusa a participar daquilo — afinal, ali era seu lugar de “fala”.

Foi a hora da medicação. Nada de picadas de agulha, gotinhas nem comprimidos. A médica me pedira para conter a cara do bicho, mas foi direto para o reto do animal. Levei muitos segundos para entender que o termômetro já havia sido usado e que agora se tratava de uma seringa.

Pipoca protestou contra a invasão, e eu assegurei que não haveria mordidas. A médica seguiu, agora com mais vaselina.

— Pronto! — disse, indicando com segurança que eu descesse a cachorra gorda da mesa.

Fiquei mudo, atendendo ao comando como se da equipe fosse, mas com perplexidade profunda — profundidade que teria feito da Pipoca um expoente do pensamento moderno, não fosse o fato de que ela já havia esquecido o que acontecera.

Aquele revés me tranquilizou quanto à confiabilidade de meu discurso, apesar das ativas tentativas de sabotagem de Pipoca.

Depois que entendi que a cachorra não me surpreenderia com fotografias ou gravações, nem acenderia um cigarro, tentei relaxar, sentando-me.

Enquanto a doutora falava coisas sobre triptofano e um monte de coisas que eu nunca retenho, minha mente imaginava o remédio viajando pelo ânus do cachorro até...

“Até onde mesmo?!” Naquele momento, eu precisava de mais atenção que o bicho. Com muita perplexidade, acabei ganhando uma aula sobre a mucosa do reto e como ela absorve a medicação.

A mulher falava, perguntava e recomendava coisas, ouvidas em segundo plano, como se debaixo d’água. Nesse ponto, eu já pensava que banheiros poderiam ser, em algum momento, restaurantes. Imaginei bares com mangueiras nos bancos. Pensei em quanta inconveniência gustativa poderia ser evitada desde a infância. Pensei que dentistas talvez hoje tivessem menos trabalho também. Imaginei modelos de negócio, calças diferentes, arquiteturas, uma sociedade diferente, que deu um curto na minha cabecinha. Ali eu já me perguntava se a tal sociedade que come pela bunda não tinha sido inviabilizada apenas pela moralidade ocidental — não me bastava a hipótese de ignorância.

Não sei que cara eu fazia quando ela me interrompeu, mas minha barriga roncava muito às 14h30. Eu já tinha, naquele momento, pensado em comer algumas coisas pelo reto [pense na conveniência ao dirigir], mas achei sensato esperar para sentar à mesa da forma convencional — e ouvir as considerações da minha esposa antes de termos filhos.

Com muito cuidado, eu lhe disse, apontando para a cachorra:

— Doutora, por favor, não me leve a mal.

— Pois não?! — atentamente, me autorizou a prosseguir.

— Às vezes, tomar no cu é uma coisa boa... — disse, com medo de sair dali algemado depois de ter falado tal absurdo àquela profissional.

A mulher sacudiu a cabeça, arregalou os olhos e me fez repetir a barbaridade. Assim o fiz, ipsis litteris, indicando novamente que se tratava do animal. A mulher não olhou para o bicho, mas deu uma gargalhada que me aliviou. Em um tiro, a metralhei com as possibilidades de aproveitamento da técnica que ela empreendera.

Olhei para o lado, e Pipoca acendera um cigarro e começara a fumar [não, não o fez, mas a cachorra olhava para mim esperando um desfecho favorável — favorável, apenas, mesmo que não fosse para mim].

Depois do silêncio, todos nos olhamos, e o teclado passou a anunciar o intervalo do show de constrangimento que se tornara a consulta. A médica coçou a nuca, e eu só queria ir embora dali. Paguei as despesas e partimos.

Se um dia eu tomasse chá de boldo pelo reto ou simplesmente dipirona, certamente não o faria perto da Pipoca, pois ela certamente deixaria de beber no seu pratinho de água, pegaria sua maletinha e partiria de casa.

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