Medo de barata
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depois de um dia desmoralizante a cama era um prêmio digno de um ser humano. Embora eu articulasse fala e orientasse bem o raciocínio, não me bastavam como critérios satisfatórios dessa condição[me faltava dignidade no fim do dia]. Tamanho o autodesprezo, que julguei naquela noite dormir sem tomar banho [passo acolônia e minha esposa não perceberá... por que não?!].
Meu espírito aviltado continuou em jornada onírica, não sobre o ar ou a água, mas descalço, suado, esbaforido correndo atrás do ônibus, num daqueles pesadelos aonde estamos atrasados pra seja lá o que for. No caminho, quando o ônibus já escapava, achei uma alma que recebeu minhas frustrações: um cachorro inocente que comecei a apedrejar.
A sessão da moléstia no pesadelo foi interrompida quando senti pequenos beliscões agudos, quase como picadas de alicate de unha na minha orelha. Abanei a mão achando que fosse o gatinho na cama com seus dentes de agulha, mas o incômodo agudo dolorido e quase urticário voltou, agora na minha têmpora. Dessa vez escutei o ranger do corpo artrópode meio plástico meio amadeirado. Arregalei os olhos na penumbra. Estapeei-me a cara. Sacudi o cabelo e mal olhei pra ele subindo na parede vagarosamente. Fiz pose de ameaça e brandei a mão pra enxotar o tal bicho, que, pugilisticamente, não se mexeu -se fosse uma aranha deveria se chamar Anderson [claramente um predador exibido, um enviado astral guiando a humilhação de um mamífero que, de forma cosciente decidiu abster-se da higiene por algumas horas]. Quelíceras- pensei -? Barata [lógico! Veio me punir pela imundice! Logo vêm ratos... não é pra tanto, minha mulher teria me acusado]! Só conseguia pensar naquele atentado, naquele aparelho bucal mecânico tentando triturar meu tecido epitelial... As enzimas na minha pele! Que nojo! Que diabos me mordeu?! Não pude gritar, mas também já decidira pela sujeira. Agora tinha um novo medo e poderia estar em qualquer lugar.
Deveria ter consultado o I Ching pra saber qual o lado certo da cama - tentei racionalizar, dando um propósito supersticioso para a criatura-. Nunca Tive medo de barata, aranha, sapo, rato ou bicho algum [pelo contrário], mas aquilo me fez mudar para outro pólo e aceitar que agora eu tinha um novo inimigo e que ele estava jogando comigo [o pior é que ele sabia das minhas fragilidades recônditas]. Fui vencido pelo sono.
Primeira constatação: Eu não estava me tornando o inseto kafkiano, mais provável é que eu fosse a sua dieta.
Segunda constatação: observei pela manhã que não ganhei um físico hollywoodiano, embora as tendências geriátricas preservadas.
continua...
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