No meu tempo
TEXTOSCRÔNICA
8/15/20262 min read


Ficar velho é ser chato ou é a chatice que torna a velhice intragável?
“Ah!!! No meu tempo... Ai!!! Antigamente é que era bom...”
— Confesso —
Não posso me furtar essas frases invasivas em play automático dentro da cabeça diante das corcundas tão jovens [não fosse a obrigação adulta, muita gente provavelmente vegetaria o dia inteiro nas telas também], mas é muito difícil imaginar novas infâncias sem baladeira, pelada ou rolimã.
— Na minha época —
“Na minha época” é o que sempre evito dizer, mas sempre penso. Talvez um ego reprimido como uma criança que aponta para o brinquedo negado pelos pais [não vou birrar, mas a ameaça do constrangimento vigia e me resigna até a volta pra casa]. É nesse lugar feliz [memória] que um homem tem que ir escondido, com trilha de barbante, fantasiado de flautista ou pintor. Hora marcada pra retornar, senão acontece um acidente de trânsito ou coisa pior [chorar].
Que criança ainda faz roupa de ninja com camisa e calça jeans? A fantasia já nasce pronta: imaginada, costurada e impressa... Ainda se vive a fantasia?
Quem ainda brinca com a sombra ou com barquinho na vala; brinca na chuva, de tacobol ou de chuveirinho de Bombril [com este queimei a camisola verde de seda que minha tia ganhou do amante; ela ficou puta de raiva (só de raiva, reforço) e me enxotou de casa — o dia mais triste da minha vida naquele ano]?
Espada, arma ou carrinho demandavam só um trabalho simples de reciclagem. O acabamento era por conta da imaginação.
— “Sapajus nostalgicus” —
De tudo, o que mais me arrebata é o entardecer na minha rua. Bairro novo com muitas casas em construção, muitas ainda só barracos pra evitar invasão [muros ou cercas não detinham os filhotes franzinos de gente, que andavam pelos muros e se atiravam com cambalhotas nos montes de areia]. Pelo ingazeiro subíamos para um barraco de onde era só estender a mão e apanhar ingá. O Sol esfriava e, debaixo daquela sombra, ficávamos no telhado Brasilit feito macaquinhos comendo ingá.
Ainda me alegro de ver um campinho, pois sei que dali sai gente boa. Dali saem muitos caminhos; alguns se cruzam, outros não têm saída. Embora o mesmo fio condutor conecte a chuteira e o tênis All-Star, gosto de ver jovens de All-Star, mas sei que não é o mesmo pra mim ou para o Nando Reis [quem sabe significará outra coisa com uma Terceira Guerra].
Pode parecer [não parece] que os jovens são sorteados, misturados e, como ao acaso, saem novos donos, doutores, líderes e parlamentares, mas a fórmula sempre funciona. Nossas escolas, instituições, ruas e mangueiras produzem sempre igual.
Será este o momento de ser um elo? Em vez de viajar, fugir fantasiado para minhas memórias, ajudar a construir uma juventude, um novo tempo?
Sempre haverá “algo errado” com a juventude, e este provavelmente é o revés: o viés [?].
© 2026 The Ledger. All rights reserved.
