No meu tempo

TEXTOSCRÔNICA

9/15/20262 min read

ficar velho é ser chato ou é a chatisse que torna a velhice intragável?
"Ah!!! no meu tempo... Ai!!!, antigamente que era bom..."
[confesso]

Não posso me furtar essas frases invasivas em play automático dentro da cabeça diante das corcundas tão jovens [não fosse a obrigação adulta muita gente, provavelmente, vegetaria o dia inteiro nas telas também], mas é muito difícil imaginar novas infâncias sem baladeira, pelada ou rolemã.


[na minha época]
-na minha época- é o que sempre evito dizer, mas sempre penso. Talvez um ego reprimido como uma criança que aponta ao brinquedo negado pelos pais [não vou birrar, mas a ameaça do constrangimento vigia e me resigna até a volta pra casa]. É nesse lugar feliz [memória] que um homem tem que ir escondido, com trilha de barbante, fantasiado de flautista ou pintor. Hora marcada pra retornar, se não acontece um acidente de trânsito ou coisa pior [chorar].


Que criança ainda faz roupa de ninja com camisa e calça jeans? A fantasia já nasce pronta: imaginada, costurada e impressa... Ainda se vive a fantasia?

Quem ainda brinca com a sombra ou com barquinho na vala; brinca na chuva, tacobol ou chuverinho de bombril [com este queimei a camisola verde de seda que minha tia ganhou do amante; ela ficou puta de raiva (só de raiva, reforço) e me enxotou de casa -o dia mais triste da minha vida naquele ano-.]?
Espada, arma ou carrinho demandavam só um trabalho simples de reciclagem. O acabamento era por conta da imaginação.

[Sapajus nostalgicus]
De tudo o que mais me arrebata era o entardecer na minha rua. Bairro novo com muitas casas em construção, muitas ainda só barracos pra evitar invasão [muros ou cercas não detiam os filhotes franzinos de gente, que andavam pelos muros e se atiravam com cambalhotas nos montes de areia]. Pelo ingazeiro subíamos para um barraco de onde era só estender a mão e apanhar ingá. O Sol esfriava e de baixo daquela sombra ficávamos no telhado Brasilit feito macaquinhos comendo ingá.

Ainda me alegro de ver um campinho, pois sei dali sai gente boa. Dali saem muitos caminhos; alguns se cruzam, outros não têm saída. Embora o mesmo fio condutor conecte a chuteira e o tênis All-Star, gosto de ver jovens de All-Star, mas sei que não é o mesmo pra mim ou para o Nando Reis [quem sabe significará outra coisa com uma Terceira Guerra].


Pode parecer [não parece] que os jovens são sorteados, misturados e, como ao acaso, saem novos donos, doutores, líderes e parlamentares, mas a fórmula sempre funciona. Nossas escolas, instituições, ruas e mangueiras produzem sempre igual.

Será este o momento [de ser um elo]? Em vez de viajar, fugir fantasiado para minhas memórias, ajudar a construir uma juventude, um novo tempo?

Sempre haverá "algo errado" com a juventude, e este provavelmente seja o revés: o viés[?].


14.9.26