O Carcará

O valor do método e do ritual: resultado e legado.

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Andrew Avila Barroso

5/31/20266 min read

O homem de calça jeans e casaco de couro camurça escolheu o carrinho mais alinhado e entrou no mercado. Depois de um trajeto em sentido anti-horário, desinteressado pelos corredores partiu rumo as fitas e braçadeiras, passando, antes, pelas lâminas, martelos e outras ferramentas.

Na fila retirou seu tampão auricular e, próximo ao caixa, passou a organizar os doces em ordem cromática.

Ao ser atendido sorriu, pagou em dinheiro e calmamente levou suas compras ao carro, que estava na ultima vaga, mais proxima do deposito de lixo.

O porta-malas e a luz do sol agrediu a retina do homem descabelado e amordaçado que ali estava, como um de seus itens dispostos. Havia bagunça tentada pelo homem bem amarrado, mas ainda era um dos volumes somados às compras recentes.


Seus olhos irados prometiam muita coisa improvável naquelas circunstância. Ofegante, mexia os olhos e gemia com sua veia pulsante no pescoço enquanto a tampa encerrava seu discurso no escuro.


Ele deu a volta no seu Ford Maverick, chutou levente a roda direita dianteira, acendeu um cigarro e seguiu por três horas para a zona leste mais rural da cidade. Sete cães, depois do caminho de terra de cinco minutos da entrada de seu terreno até sua casa, à sua espera não latiram. Desligou o carro e o som, que tocava Black Magic Woman, e desembarcou.


Foi até a traseira do carro e fez um assobio, que convocou seus outros três cães. Todos enfileirados, estavam ansiosos pelo que tinha no carro. Quanto mais ele se aproximava da mala, mais os cães ficavam inquietos e resmungavam. Fitou os olhares dos animais, que não se continham mais de tanta ansiedade, e abriu a mala. Todos os cães latiam ao mesmo tempo perto do ouvido do homem, que tentava entender aonde estava e o que aconteceria.


Posicionou-se diante dele e os cães latiam a espumar pela boca. Levou a mão direita lentamente até a fivela da calça, pelo que os latidos diminuíram em submissão.


Os olhos do homem, que estavam procurando um prédio ou algo como referência agora seguiam as mãos até o botão da calça. Logo a veia no pescoço pulou, os olhos arregalaram e ele começou a gritar em fúria, de forma inaudível, e se debatia.


Em um bote abaixou a mordaça e deixou o homem gritar:

-deixa eu ligar, doente! Eu pago! O que tu queres?! Dinheiro?! Tu é maníaco ou o que, veado?! Solta meu braço!!!


Um sorriso amarelado de dentes apinhados e grandes surgiu por trás da barba já grisalha manchada pelo fumo. Era como abrir uma cortina de palha e fumaça e assistir a uma entidade demoníaca sorrindo. Seus 1,82m agarraram a preza e a jogaram diante dos cães enlouquecidos.


Caindo de peito, soou como um saco de boxe sendo golpeado. Agora reclamava mais por causa da queda, reivindicava liberdade e tentava outras negociações.


Punha-se novamente diante do homem, mas agora com menos cerimônia, desafivelou o cinto, abriu as calças e começou a urinar diretamente no homem que, gritava a falhar a voz. O barulho dos animais se misturavam aos rosnados do homem, que horas não se ouvia pela urina cuspida pela sua boca. Feita a humilhaçao, os bichos uivavam diante do corpo prostrado. Uns cheiravam a urina do cabelo, outros o ânus. Resignado, em posição fetal, aguardava seu destino, agora, sem murmurar. Era chegada a noite e, ao comando, foram todos dispensados aos resmungos.


Acordou limpo sobre feno, presos os pés e as mãos por correntes de 2m e com comida e água disponíveis. Depois de dois dias sem comer aceitou a comida entregue pelo passa-prato. Sem sua academia voltou a exercitar-se, mesmo acorrentado, pelas quatro semanas.


No último dia na cela sentiu um gosto diferente na carne e depois de duas horas, dopado, apagou.


Acordou de noite dentro de uma arena rodeada dos cães. Havia tochas e refletores. Os animais corriam em volta da grade e vocalizavam como apitos.


No alto, entre as árvores, no mitante de caça, o caçador deu o assobio que silenciou os cães. Ele estava entre dois holofotes, que obrigavam o homem a bloquear as luzes com as mãos. Percebeu várias cameras filmando. Era um espetaculo sendo gravado.


O caçador arremessa do alto um simples relógio marcando 00:05:59:48 decorrendo. Com uma escorrega rapido com uma tiroleza e aterrissa dentro da arena macia de serragem.


O Caçador, agora com uma indumentária detalhada em couro e pele se vira para a caça. Al luzes mostram uma máscara inquietante, feita com o crânio de algum animal, mas tcom a face totalmente cravejada de dentes. Havia um simbolo pintado a dedo com sangue novo, sobrepondo outras marcas já desbotadas.


A surpresa demorou pouco, pois o homem pulou em direção ao caçador, caindo os dois na cerragem.


O caçador arregala os olhos, descobrindo as noções de luta do oponente. Enfia a mão na cerragem e tenta golpear a cabeça, mas é bloqueado pelo esquerdo e tem seu porrete tomado. O Caçador puxa do coldre um forte taser e dá um choque atordoador.


O choque fez o homem gritar de dor e, logo o caçador ficou de pé novamente.

O homem se jogou próximo as grades a vasculhar outra arma escondida, então acha um facão e se vira para o caçador, que lentamente, com as mãos abertas para baixo, se afasta dele.


O homem dá um leve riso e anda lentamente em direção ao caçador, que mantém a atenção nos passos do oponente.


"Sabe o que é mais engraçado?", disse acariciando a arma. "Não tô nem aí pra quem tu és ou porque tô aqui. Eu vou cortar teus dedos e fazer teus bichos comerem. Quando eles cagarem, tu vai comer, não me interessa se tu vai estar vivo. Vou conseguir essas gravações e é só o que eu quero".


Ao primeiro passo depois de discursar se ouve um clique no seu pé. Ele corre para matar o caçador, que aperta um botão em seu relógio que aciona a armadilha em que caiu.


O homem amaldiçoa o caçador, que, tranquilamente sai da arena e reaparece no mitante. Ele vê o caçador empunhar um grande arco adornado com penas e mirar sua primera flecha e sua direção. Começa a golpear a corda, que vai cedendo.


Com uma unica flecha o caçador parte a corda e liberta a caça.


Os cães ainda fazem muito barulho, mas permitem que a caça fuja para a mata.


O homem entra na mata e se distância. Suas unica referencias são a luz da Lua Cheia e a pobre luz do relógio. Ele já nao ouve mais os latidos segue a direçao por algumas horas. O relógio agora marca "00:01:02:23".


Constata que não tem nenhuma bomba em seu corpo e resolve abandonar o relógio por medo de ser encontrado por GPS, satélite ou outra artimanha do caçador.


O homem está exausto e o dia começa a nascer. Ele avista um riacho e se localiza geograficamente. Ele só precisa descer o monte e atravessar o riacho e logo chegará na rodovia.


Ouviu o assobio do caçador e correu. Se escondeu em tronco oco e, quando foi olhar sinais dos perseguidores, um cão quase abocanha seu rosto e começa a latir. Ele golpeia o cão com seu facão e o bicho grita de dor em agonia. Ele ergue uma pedra pesada sobre sua cabeça e cala o cão, esmagando a cabeça do dobermann.


Quando ele se levanta para olhar para o avanço dos cães uma flecha o atravessa o ombro direito pendendo-o na árvore. Ele grita de dor e e outra flecha mais forte entra em sua barriga. Ele cospe sangue e vê o caçador alçando seu arco e olhando para ele.


O caçador está calmo e admira o homem pregado como uma pintura num museu. É um olhar apaixonado, como se tivesse dado luz a um anjo. Os cães cheram o outro esmagado.


Começa a chover e o Caçador tira o relógio que dera para o homem do bolso. Marca "00:00:02:47". Os cães cheram o relógio e recebem afago na cabeça.


Começa a chover e o caçador tira a máscara. Recebe a chuva em seu rosto extasiado.


O relógio apita o fim da contagem e ele vai até o homem, que já está tonto. Pega um alicate e levanta o rosto da caça pela franja. Leva uma cusparada de sangue na cara. Arregala os olhos e pressiona os labios. Ele arranca o primeiro dente e a cabeça cai desfalecida.


O caçador abre sua mochila e tira uma máscara como a sua, mas menor, como de criança. Ele crava o primeiro dente da máscara e vai embora.

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