Vida de inseto
TEXTOSCRÔNICA
9/15/20264 min read


Depois de um dia desmoralizante, a cama era um prêmio digno deste ser humano. Embora eu articulasse a fala e orientasse bem o raciocínio, estes não me bastavam como critérios satisfatórios dessa condição — homem. Faltava-me dignidade no fim do dia. Tamanho era o autodesprezo que julguei aceitável, naquela noite, dormir sem tomar banho [passo a colônia e minha esposa não perceberá... Por que não?!].
Meu corpo adormeceu e meu espírito fustigado iniciou sua jornada onírica, não sobre o ar ou a água, mas descalço, suado, esbaforido, correndo atrás do ônibus, num daqueles pesadelos em que estamos atrasados pra seja lá o que for. No caminho, quando o ônibus já escapava, achei uma alma que recebeu a descarga das minhas frustrações: um cachorro inocente que comecei a apedrejar.
A sessão da moléstia no pesadelo foi interrompida quando senti pequenos beliscões agudos, quase como beliscos de alicate de unha, na minha orelha. Abanei a mão, achando que fosse o gatinho na cama com seus dentes de agulha, mas o incômodo agudo, dolorido e quase urticante voltou, agora na minha têmpora. Dessa vez, escutei o ranger do corpo artrópode, meio plástico, meio amadeirado. Arregalei os olhos na penumbra. Estapeei-me a cara. Sacudi o cabelo e mal olhei pra ele subindo na parede vagarosamente, me encarando. Fiz pose de ameaça e bradei com a mão pra enxotar o tal bicho, que, pugilisticamente, não se mexeu — se fosse uma aranha, deveria se chamar Anderson. [Claramente um predador exibido, um enviado astral testando meu orgulho, minha coragem e minha saúde cardíaca.]
Quelíceras?! — pensei. — Barata! [Lógico! Veio me punir pela minha imundice! Logo vêm ratos!... Não é pra tanto; afinal, minha mulher teria me censurado de pronto.] Só conseguia pensar naquele atentado, naquele aparelho bucal mecânico tentando triturar meu tecido epitelial... As enzimas na minha pele! Que nojo! Que diabos me mordeu?! Não pude gritar, mas também já decidira pela sujeira. Agora tinha um novo medo e ele poderia estar em qualquer lugar.
Onde seria a próxima mordida, já que eu estava nu?
Deveria ter consultado o I Ching pra saber qual era o lado certo da cama há quase dois anos, quando chegamos nessa casa, e também já era muito tarde para jogar moedas. Tentei racionalizar, contraditoriamente, dando um propósito espiritual para a criatura. Nunca tive medo de barata, aranha, sapo, rato ou bicho algum. Pelo contrário. Mas aquilo me fez mudar para o outro polo e aceitar que agora eu tinha um inimigo no quarto e que ele estava jogando comigo [o pior é que ele sabia das minhas fragilidades recônditas — ou mais expostas, no plano físico]. Naquela hora da madrugada, eu já me via como a sentinela na guerra, com o rosto pintado e com os olhos pesados de sono. Dormi esperando meu algoz, protegendo a minha arma.
De manhã, fui direto para o espelho verificar a desfiguração tentada contra o meu rosto. Eu sabia que tinha sido violentado, e quem o fez assim o fizera como advertência contra próximas ocorrências [Barata: o coach do banho, mestre da limpeza. Quem diria...].
Como criança que escapa do castigo, muito arrependido, agradeci a preservação da minha identidade. Afinal, eu não estava preparado para ser entrevistado na TV por causa das faixas no rosto, muito menos para me isolar em alguma igreja, castelo ou coisa assim — talvez eu aceitasse a mutilação no rosto logo depois de tirar um empréstimo alto, mas há muito eu já era vilipendiado pelos bancos digitais e meu círculo social restrito não me conectava a nenhum agiota. Naquele ponto, eu já estava ponderando que perder meu rosto teria sido um bom negócio.
Primeira constatação: eu não estava me tornando o inseto kafkiano. Mais provável é que eu tenha sido confundido com sua dieta naquela noite.
Segunda constatação: observei pela manhã que não ganhei um físico hollywoodiano, visão perfeita ou superpoderes. Embora eu já notasse as tendências geriátricas no meu corpo, não seria uma ideia ruim ter superpoderes de uma barata aos trinta e cinco.
Retiro o que disse. Nem mesmo a notável resistência a acidentes astronômicos seria uma boa ideia. A humanidade prova isso: ainda estamos aqui — com bem menos meteoros ou menores, é verdade. Talvez todos tenhamos sido mordidos por baratas. Talvez tenhamos poderes de baratas e, por tabela, eu também.
Meu Deus!
Eu tenho sangue de barata!
Em algum momento na vida, a capacidade de resignar-se diante da vida — como quem tem sangue de barata — tornou-se minha genética? Maldição!
Os homens da concessionária de energia, anunciando ontem o corte de energia, me jogaram no chão! Aquilo foi humilhante. Acabou comigo. Quis me esconder no bueiro, na sujeira.
Sentira-me um inseto. Andara dias por aí catando migalhinhas pra sobreviver, de um lado a outro, de sombra em sombra, mas não foi suficiente.
Outras noites passaram sem inseto algum no quarto. Agora as contas voam e me assombram noite e dia, mais que antes.
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